"Em Guimarães chapéu de todo brincante de bumba-boi tinha um arranjo de flores de malacacheta" diz Yvete Reis Lopes em entrevista

28.06.2016

A vimarense Yvete Reis Lopes, que reside há vários anos na cidade de São Paulo, concedeu entrevista ao Blog Vimarense

 

A vimarense Yvete Reis Lopes, lembra-se, com saudade, do São João de sua adolescência em Guimarães na década de 1940. Entrevistada pelo colaborador do Blog Vimarense Antônio Marcos Gomes, dona Yvete, radicada em São Paulo há muitos anos e, hoje, aposentada, recorda-se das fogueiras nas noites de São João na cidade de Guimarães, dos bumba-bois brincando à porta de seu pai Frutuozo Inocêncio Coelho de Souza Lopes, na Rua Dias Vieira, do alvoroço das crianças acendendo "as estrelinhas" e pulando fogueira, do busca-pé jogado por brincadeira entre adversários nos bumba-bois que queimava muita gente e obrigava o único farmacêutico da cidade - seu pai Frutuozo Lopes -  a trabalhar redobrado nos curativos durante as noites de São João e São Pedro. Dona Yvete Lopes que chegou a vencer o Concurso de Miss Guimarães, nasceu no dia 18 de dezembro de 1930. Filha de Frutuozo Inocêncio Coelho de Souza Lopes e Raymunda Martinha Reis Lopes, passou a sua infância e adolescência em Guimarães, transferindo-se para São Paulo em 1947, vindo a trabalhar na Viação Aérea São Paulo (VASP), onde permaneceu por 30 anos. A seguir a entrevista:

 

Blog Vimarense - Como era o período junino na época de sua infância e adolescência em Guimarães?

Yvete Reis Lopes - O meu pai contratava bumba-meu-boi para dançar na porta de nossa casa. Convidava as famílias amigas. Acendia fogueira. Meu pai comprava em São Luís muitos fogos. Tinha um que era para nós, crianças, chamava-se "Estrelinha". Era uma festa. Era época de tangerina e a gente comia muito essa fruta. Havia disputa entre o Boi de Guimarães e o de Cumã. Soltavam busca-pé. Era horrível. Meu pai ficava a noite inteira acordado a fim de fazer curativos nas pessoas que se queimavam. Meu pai era farmacêutico e nós tínhamos uma farmácia, a Farmácia Lopes. A festa era só ver dança de bumba-meu-boi, mas era lindo demais. Boi do Alecrides era famosíssimo. 

 

A senhora se lembra de alguma toada de Alecrides?

Lembro-me desta cantiga: 

"Dona, taqui o boi

que mandou contratar

Se a brincadeira não presta

Faça favor, me diga já

Lá vai meu boi,

Guerreiro de Guimarães

que seduz o pessoal

na testa dele tem

um espelho de cristal

que todos podem se mirar

Ê boi!

 

Blog Vimarense - A senhora vê diferença entre o bumba-boi brincado hoje e o de antigamente?

Era muito diferente de hoje, mas era muito bom.

 

Eram crianças que jogavam os busca-pés nos brincantes do bumba-boi?

Não eram crianças. Qualquer pessoa soltava busca-pé. Não era por maldade, era brincadeira.

 

Com os movimentos da dança, os busca-pés "corriam" atrás dos vaqueiros e chegava a queimar a vestimenta do brincante?

Os busca-pés não eram jogados nos vaqueiros. Eram jogados e "corriam" atrás de qualquer pessoa. Era impressionante como os busca-pés "corriam" atrás das pessoas. Aí queimava muita gente.

 

Além da porta da casa de seu pai, os bumba-bois costumavam brincar na porta de quais pessoas da cidade?

Também chamavam para os bois brincarem à porta de Manoel Pimenta e Honório Schalcher, que eu me lembre. Depois meu pai morreu e tudo mudou na minha vida. 

 

Quem organizava os bumba-bois da sede?

Não tinha bumba-meu-boi da sede.

 

E as fogueiras nas ruas da cidade?

Acendiam-se fogueiras e brincávamos de pular fogueira. Aí a gente escolhia uma pessoa para ser nossa madrinha. Madrinha de São João.

 

E suas amigas dessa infância em Guimarães?

Há pouco tempo perdi uma, Maria, era freira no Recife; Maria Raimunda Campos, Maria de Lourdes, morava na Rua do Porto; Mariazinha, filha de Seu Zuza; Marinete, minha prima, morava em Cumã.

 

E os nomes de seus irmãos?

Laudelino, Ana Maria, Ruth, Francisco de Assis, Walter, Leila e Dirlene.

 

Além de Alecrides, quem eram os cantadores mais conhecidos de Jacarequara,  Rabeca, Mirinzal, Maçaricó e Genipaúba?

Só me lembro de Alecrides.

 

A senhora conhece a toada de Zé Almeida, de Mirinzal, que falava do Monstro Marinho de Guimarães, na época da Segunda Guerra Mundial?

Não. Conheço a história do Monstro de Guimarães, mas nunca ouvi cantiga que falasse nesse assunto. Deve ser de outra época.

 

E como era o boi?

Quando eu morava em Guimarães o chapéu de todo brincante tinha, como se fosse uma grinalda, um arranjo de flores de malacacheta (é um papel brilhante). Era muito bonito. Tinha uma amiga de minha mãe que fazia e vendia. Eu sabia fazer as flores.

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