• Nonato Brito

Dona Dudu brincou 3 e fez 8 Pastores em Guimarães


Dona Dudu: "Em Guimarães, na sede, tinha sempre dois Pastores: um dos brancos e um dos pardos"

O Blog Vimarense faz, com esta postagem, uma homenagem a todos aqueles que se dedicaram e se dedicam a manter viva a cultura popular vimarense, traduzida na encenação do auto de Natal, conhecido como “Pastor”. Pesquisando o arquivo do Jornal Folha de Guimarães, fomos encontrar esta entrevista com dona Dudu - Doralice Cardoso -, que fazia Pastores em Guimarães na década de 1950 e 1960. A entrevista, publicada em janeiro de 1982, portanto há 34 anos, foi feita pelo então repórter e diretor do jornal, Agenor Gomes, à época com 26 anos, e hoje juiz de direito em São Luís. Dona Dudu é falecida há 16 anos. A seguir, a entrevista:


“Dezembro é época de Pastores em Guimarães. Especialmente véspera e dia de Natal. Uma festa que se encontra arraigada na alma de nossa gente. Depois continua pelo Ano Novo até a queima das palhinhas. Não há vimaranense que ainda não tenha visto um “Pastor”. Se existem, estes são exceções, tamanha é a popularidade deste festejo em Guimarães. A Pastoral – consagrada pela linguagem popular apenas como “Pastor” – é uma encenação da adoração à Jesus, logo após o seu nascimento. O Guia, o Pastor Mestre, a Florista, os Galegos, são personagens que não podem faltar em um “Pastor”. Curioso é que os Reis Magos não aparecem. O Guia é a figura mais cobiçada. Os matutos, os mais engraçados. Finalizada a representação, começa o baile que vai até de manhã. Hoje, um tanto adulterado pelo excesso de músicas estrangeiras, que nada tem a dizer ao nosso meio. E o nosso forró vai ficando num canto, relegado às traças... Organizadores de Pastorais Guimarães teve muitos. E tem, ainda, uma boa leva. No passado, destacaram-se Osório e Edson Anchieta, Nhazinha Goulart, Padre Luís, as irmãs Coutinho, Djalma Fortuna, Zuza Bastos... Temos hoje, Júlia Abreu Cutrim, Altiva Teixeira, Vitória Moreira, Marcelino Azevedo (de Damásio), Florêncio Martins (da Prata), Dona Clarinda, Dona Dudu e muitos outros. Para fazer esta entrevista com Doralice Cardoso – Dona Dudu, como é conhecida – reunimos gravador e máquina fotográfica e partimos para a casa de seu genro Neco, em São Luís, onde havíamos acertado o bate papo. Fomos encontrá-la rodeada de netos, à espera do repórter: – Falar eu falo, mas retrato eu não quero, adiantou dona Dudu. – Não se preocupe, o retrato vai sair bem, tentei convencê-la, já começando a entrevista".


Folha de Guimarães - Dona Dudu, quantos Pastores a senhora já chegou a fazer?

Dona Dudu - Fiz oito Pastores. Um primeiro que eu fiz foi um Pastor de meninas. A minha filha Cecília, nessa época, tinha onze anos. Ela foi florista. Mas o primeiro que eu fiz não tinha palco, era no chão.


E essa vontade de organizar Pastores vinha de muito tempo? Eu sempre gostei de Pastor. Cheguei a brincar três. Nesse período, quem organizava os Pastores eram “Seu” Osório Anchieta, Dona Nhazinha Goulart, que ainda está viva e mora aqui em São Luís, Zuza Bastos, as Coutinho, Djalma Fortuna e outros mais.


E os músicos tinham uma boa participação?

Ah, tinham! Até o baile era com orquestra e não com radiola, como é hoje. A radiola fez com que os músicos sumissem. Está fazendo uns quatro anos que eu deixei de fazer um Pastor por falta de músicos. Mas ainda se encontram bons músicos.


Era sempre destaque fazer parte de um Pastor...

As mocinhas se sentiam satisfeitas sendo Guias, Floristas, Pastor Mestre, Ciganas. Uma dificuldade que se encontra hoje é que as moças não querem mais participar, principalmente dentro da vila.


Sempre houve a Sertaneja ou ela é uma brincante colocada de uns tempos para cá?

Eu sempre botei. A filha de Clara Buião uma vez foi Sertaneja. Maria de Cândido foi Cigana em outro Pastor. Agora é que o número de Pastores diminuiu. Mas antes tinha Pastor por todo lado. Na vila sempre tinham dois: um dos pardos e um dos brancos. Os mais remediados não brincavam no meu. Mas os dois davam alegria pra todo mundo.


Faz muito tempo que a senhora fez seu último Pastor?

Não. O último que eu fiz foi representado lá na Paroquial. Quem tocou pra mim foi Moisés, que já faleceu, Caboquinho e Pedro Malazar. Nesse, eu me lembro como se fosse hoje, a florista foi uma filha de Mundica, a Íris. E Ana Lúcia, minha neta, foi Pastora Mestra. Depois disso eu ainda fui a Macajubal ensaiar outro Pastor. Mas não era meu. Eu era só a ensaiadeira.


E os gastos?

Dá uma despesa bem grande. Mas os amigos sempre ajudam. Os pais das brincantes arcam com as despesas para vestir as suas filhas. A gente gasta bastante, mas Deus ajuda. Tem os músicos, a ramada, o cenário... Esse professor Nascimento Moraes Filho, que tem um livro sobre Maria Firmina, quando era coletor em Guimarães me ajudou a fazer um. Até arrumou casa.


Mas a senhora não fazia só Pastor. E as brincadeiras de Carnaval? Eu fiz muitas. Agora só saudades. Mas Pastor eu adoro e gosto. É a festa que eu vou desde o primeiro ensaio.

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