GUIMARÃES EM VERSO E PROSA
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RECORDANDO A VIAGEM DE BARCO
Por Tony Avelar
Partir de Guimarães rumo a São Luís era, para muitos, mais do que uma simples travessia — era um ritual de vida. Ainda de madrugada, quando os remos dos pescadores beijavam as águas do Patacaia levando mercadorias para os barcos e o sol apenas ameaçava nascer por detrás dos mangues, o porto já fervilhava. Os barqueiros gritavam, organizando as cargas, enquanto o povo se ajeitava com suas trouxas, redes, galinhas e sacos de farinha.
O Joselândia, sempre altivo, balançava leve ao sopro do vento, como se esperasse sua hora de cortar o mar. Ao lado, o Iate Bom Jesus brilhava com a pintura gasta de quem já conhecia cada curva das marés. Ambos eram velhos companheiros de jornada, testemunhas de risos, choros e despedidas.
Dentro do porão, tudo se misturava: caixas de peixe fresco, cestos de frutas, feixes de banana — e, no convés, porcos amarrados, galos inquietos e malas improvisadas com corda e fé. As pessoas se ajeitavam como podiam, sentavam-se nos bancos, abriam as redes para ter mais conforto, fazendo das horas um descanso, do balanço um embalo, ou ficavam no convés, junto à cabine do comandante, conversando e olhando o horizonte.
O motor resmungava grave, cuspindo fumaça e lembranças. O cheiro de óleo, sal e café coado era o perfume do caminho. Havia quem rezasse, quem cochilasse, quem contasse histórias antigas das travessias passadas — quando os barcos eram de vela e o tempo não tinha pressa.
Pelas janelas laterais, a paisagem desfilava lenta: manguezais, garças, ilhotas que pareciam flutuar, casas solitárias de palha e o mar, cada vez mais largo. As crianças olhavam curiosas, sonhando com a cidade grande; os mais velhos guardavam o silêncio, como quem compreende que cada viagem é também uma despedida de si mesmo.
Com as velas levantadas para dar mais velocidade, ao nos aproximarmos da Pedra do Boqueirão, já sentíamos o frio na barriga — pois sabíamos que estávamos chegando ao canal onde as ondas se tornavam maiores. O barco era jogado de um lado para outro, subia e descia como uma montanha-russa sobre as águas. Havia gente orando, olhos fechados, gritos a cada balanço e mãos que se apertavam em busca de coragem. O alívio vinha quando, enfim, vencíamos o obstáculo.
Ao longe, quando as torres de São Luís apareciam no horizonte, o barco parecia ganhar novo fôlego. Todos se ajeitavam: recolhiam as redes, prendiam os animais, arrumavam o cabelo — e o coração. O barulho do motor diminuía, o cheiro do sal aumentava, e o porto se aproximava com sua confusão de vozes, risadas e reencontros.
Assim era — e ainda é, para quem lembra — a viagem entre Guimarães e São Luís: um pedaço de vida flutuando sobre as águas, entre o real e o sonho, entre o ir e o voltar.
Tony Avelar - Marilton Fonseca Avelar, conhecido pelos amigos de Tony Avelar. Formado em Letras pela UEMA, Funcionário Público, Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Guimarães, e da Academia Vimaranense de Letras, Artes e Ciências.










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