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GUIMARÃES EM VERSO E PROSA

  • Foto do escritor: Blog Vimarense
    Blog Vimarense
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura
Entre máscaras, cores e sorrisos, os fofões nos levam de volta ao tempo dos antigos carnavais…
Entre máscaras, cores e sorrisos, os fofões nos levam de volta ao tempo dos antigos carnavais…
O Pierrot é a alma poética do Carnaval. Entre o riso e a saudade, ele representa o amor, a fantasia e a magia dessa festa que transforma tristeza em alegria e sonho em celebração.
O Pierrot é a alma poética do Carnaval. Entre o riso e a saudade, ele representa o amor, a fantasia e a magia dessa festa que transforma tristeza em alegria e sonho em celebração.

A autora da crônica deste domingo Professora Vitória Moreira dos Anjos
A autora da crônica deste domingo Professora Vitória Moreira dos Anjos

Os Velhos Carnavais em Guimarães


Por Vitória Moreira


Lembranças são lembranças que, às vezes, são aguçadas em momentos inesperados, quando o silêncio nos acomete, trazendo à memória um filme que dá gosto relembrar.

É o carnaval dos nossos primórdios, essa festa brasileira popular e tradicional que para o país por quatro dias e permite que pessoas de todas as classes sociais estejam juntas e se divirtam à vontade. O carnaval de rua é aquela alegria, um verdadeiro entrosamento entre blocos, fofões e mascarados, ao ritmo das marchinhas e sambas, sem esquecer a frenética e divertida animação dos foliões já extintos, como Os La Bibas.

Como seria o carnaval da nossa Guimarães em outros tempos? Uma população menor, mas certamente muito animada e criativa. Lá pelos meus sete ou oito anos, lembro-me das diversidades oferecidas pelos ilustres amantes da folia de Momo. Tínhamos o Congo, o Tambor de Máscaras, o Lodé entoando “Lodé, Lodé Danié” — e a tal Caninha Verde, que só conheci de nome.

Havia também o tradicional bloco Rei do Batuque, cujos integrantes trajavam preto e amarelo. “Diziam que o amarelo e preto eram as cores do carnaval.” Brincavam os casais, os jovens e até as crianças, e Dona Nhazinha, figura marcante, colaborava com esse modesto evento cheio de fantasias e entusiasmo.

E o “Vai Como Pode”? Apesar do nome pejorativo, nada tinha de desagradável. Era um grupo de senhores em fantasias simples, mas muito animados, vestindo calças brancas, camisas de estampas iguais e chapéus. Ao som cadenciado de tambores e requintas, embalados pelo cheiro do lança-perfume “Rodó”, tão usado pelos bacanas da época, faziam a festa acontecer.

O tempo passa, e Guimarães, cidade bicentenária, ganhou de presente, em seus duzentos anos, um espaço cultural que leva o nome de José Bruno de Barros, homenagem ao fundador da nossa querida e amada terra. O cassino, como todos o conhecem, traz lembranças fascinantes e contagiantes daqueles senhores, senhoras e da galera jovem que ali extravasava sua euforia ao ouvir: “Você aí, me dá um dinheiro aí”. Eram músicos vindos de São Luís — Mário Preto e sua orquestra — para fazer a alegria momesca naquele salão de ampla beleza, enfeitado pela inesquecível papel-crepom, que dava um toque de magia e animação.

Mas não parava por aí. Também no arquivo do tempo está guardado o bloco dos estudantes, em um espaço que, na lembrança deles, servia de sede e clube do Teatro Guarapiranga. Sempre culminavam em animadas comemorações ao som do clarinete de Milton Prego, da marcação do tambor surdo e da moçada que cantava e pulava no ritmo estridente que ecoava no assoalho, exibindo talento musical e alegria contagiante naquele sopro.

“Lembrar não é ficar preso ao passado; é reconhecer o quanto já caminhamos.”

O desfile de alegorias permanece vivo na memória. Recordo o engraçado bloquinho das crianças que, enfileiradas na rua, cantavam e corriam, apelidadas de “Bloco dos Soldadinhos”. Simples e ingênuas, mas cheias de pureza, carregavam inconscientemente a chama de uma resistência cultural.

Muitos foram os personagens que tornaram esplêndida a grandiosa folia de Momo naquela época. “Pra ver os veteranos que vão passar…” — ao som desse melodioso samba, lá pelas décadas de 60, com sua bela batucada descendo a Emílio Habibe, encantava com seus enredos o Veteranos do Samba. Serão sempre lembrados seus puxadores de samba: Enézio, Luizinho e João Jansen, que encabeçavam essa querida escola.

E o tal “Tá na Bucha”? Sim, mais um nome pejorativo, mas que se apagava quando subiam a Rua da Experiência — olha que lindo nome, hoje chamada Joaquim Cavagnac. E então surgia a beleza das fantasias, o exuberante vigor dos tambores, o agradável sorriso da rainha; o samba entoado pelo saudoso Cabo abolía qualquer maldoso apelido.

A vida é bela. O tempo passava e, com ele, partiram saudosos o pré-carnaval e o carnaval de rua, animado pelo trombone de Enildo, conhecido como Culino, e por sua irmã Carlota, que, vinda de São Luís, cheia de ideias práticas, desenvolvia inesperadas situações que eram uma animação total. Pioneira do Apache — “tribo de índio” —, a casinha da roça sempre admirável; a criançada da época vestia-se de espantalhos, correndo nas ruas, batendo em latas e garrafas; as batucadas das noites; a lembrança dos maravilhosos clubes: o Maracangalha — “Eu vou pra Maracangalha, vou de terno branco e chapéu de palha” —, o Carimbó, o Mela-Mela — “Vou me melar de maisena” —, o Haja Amor — “Queria ser uma abelha para pousar na tua flor” —, o Meu Peru — “Mataram meu peru, eu não sei quem foi”.

Para abraçar a todos, destaca-se o Clube da Sociedade, muito conhecido, valente, acolhedor, agradável e de bons carnavais com confetes e serpentinas.

E, para encerrar os desfiles dos saudosos, entra em cena o famoso Saramelo e, para outros, o grandioso Zé Pereira. Os dançantes já esperavam esses toques finais e nostálgicos da noitada, principalmente na terça-feira de carnaval, pois marcava definitivamente o fim da festa.

Tanto riso, tanta alegria… mais de mil palhaços no salão


Vitória Moreira é professora aposentada da rede estadual de ensino, com uma trajetória marcada pelo compromisso com a educação e a valorização da cultura local. Atualmente, exerce a função de diretora do Museu Histórico e Artístico de Guimarães, onde desenvolve um trabalho dedicado à preservação da memória, do patrimônio e da identidade vimaranense. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Guimarães e da Academia Vimaranense de Letras, Artes e Ciências, instituições nas quais contribui ativamente com pesquisas, produções culturais e ações voltadas ao fortalecimento da história e das manifestações artísticas do município. Pesquisadora incansável e organizadora de eventos culturais, Vitória Moreira destaca-se pelo empenho em promover iniciativas que aproximam a comunidade de suas raízes, incentivando o conhecimento, a reflexão e o orgulho da herança cultural de Guimarães.

 
 
 

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