GUIMARÃES, 268 ANOS DE HISTÓRIAS
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Por Osvaldo Gomes
Há cidades que nascem de decretos, e há outras que parecem brotar de dentro da terra, como se o vento soprasse seus nomes antes mesmo de alguém os escrever. Guimarães pertence a essa segunda linhagem: a dos lugares que já existiam na alma do mundo antes de existir nos mapas.
Em 1758, quando o Governador da Província do Maranhão, Gonçalo Pereira, oficializou sua fundação, Guimarães já pulsava no imaginário daqueles que avistavam a baía de Cumã e sentiam, no encontro das águas com o céu, que ali havia um destino. O gesto de José Bruno de Barros, herdeiro da Fazenda Guarapiranga — ao doar aquelas terras à Coroa Portuguesa e erguer uma capela em honra ao santo de sua devoção, São José — foi como fincar uma semente que logo germinaria em casas, ruas, engenhos e histórias.
Assim nasceu a Vila de São José de Guimarães, à beira do mar profundo e das marés que conversam com o tempo. Era rural, vasta, marcada pelo doce e pelo áspero dos engenhos de cana-de-açúcar e do algodão, movidos pela força de povos africanos escravizados, cuja presença — silenciada nos documentos, mas viva na memória — foi fundamental na construção do que Guimarães se tornou.
Antes deles, antes dos colonos, antes das fazendas, a terra era dos Tupinambás, primeiros guardiões deste território. Muitos foram dizimados; outros fugiram para o norte em busca de sobrevivência. Mas seus passos, invisíveis aos olhos apressados, continuam escritos no chão.
Guimarães cresceu entre correntes e correntezas: a estrada que dali se seguia para o Grão-Pará fazia da vila um ponto estratégico, mas o que realmente a moldou foram as pessoas que aprenderam a amar esse lugar como se ama um porto — ponto de partida e retorno, promessa e abrigo.
E como se não bastasse a paisagem grandiosa, Guimarães decidiu ser também berço. Berço de cultura, de letras, de talentos que atravessariam séculos. Sousândrade, com sua poesia que parecia vir de outro tempo; Urbano Santos, figura pública de destaque; e aquela que viveu aqui por setenta anos e reinventou o Brasil sem que o Brasil soubesse — Maria Firmina dos Reis, mulher negra, filha de uma ex-escravizada, primeira romancista do país, e que ainda hoje sopra liberdade em quem abre suas páginas.
Guimarães é uma das cidades mais antigas do Maranhão, mas carrega uma juventude teimosa. Está nas suas praias que brilham como se o sol nascesse primeiro ali; nos rios que serpenteiam histórias; nas manifestações que fazem do Maranhão um mundo inteiro — bumba-meu-boi, toque de caixas, ladainhas, rezas, bordados, memórias de engenho. E, sobretudo, está nos seus moradores, que todos os dias escrevem um novo capítulo sem perceber que são também personagens da história que tanto admiram.
Hoje, aos 268 anos, Guimarães não é apenas passado. É presente que respira, futuro que se anuncia, herança que se reconstrói. É cidade que olha para trás com respeito e para frente com coragem. É mar que nunca se cansa de chegar.
E, enquanto existir uma voz para contar e outra para escutar, Guimarães continuará sendo o que sempre foi:uma terra onde a história não dorme, apenas repousa entre uma maré e outra —esperando o próximo morador para continuar sendo escrita.










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